segunda-feira, 20 de julho de 2009

Kano I - o quarto passageiro

Vista panorâmica de Kano.
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Há duas semanas fui a Kano com a Mónica e a Pauline, passar o fim-de-semana.

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Kano é um emirado, a 350 km de Abuja, para norte, e das cidades mais ricas historicamente de toda a Nigéria. Teve um longo reinado de poderio Hausa, que remonta ao século I d.C., terminado com a invasão dos Fulani, durante a jihad fulani, no início do século XIX e através da qual todo o norte da Nigéria foi profundamente islamizado. Desde esta conquista, o emir de Kano é tradicionalmente um Fulani. Os Fulani são o maior grupo nómada do mundo e encontram-se principalmente na África Ocidental. Descendem de nómadas da África do Norte e foram os primeiros em África a ser islamizados pelos árabes. Vivem essencialmente do pastoreio e do comércio. Devido à fusão de ambas os grupos - Hausa e Fulani - diz-se que a etnia maioritária no norte da Nigéria é a etnia Hausa-Fulani.

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Como se vai para Kano? – podem vocês perguntar-me.

Bom, para ir para Kano temos, em primeiro lugar, de apagar a nossa anterior concepção de como se vai habitualmente para algum lugar um pouco distante, portanto, esquecer a ideia de “camioneta” e de tudo o que a esta se refira, como “estação de camionetas”, “horário” e “motorista”.

Creio que depois deste exercício, que convém praticar durante mais ou menos uma semana antes da partida, estaremos preparados para apanhar um transporte público para onde quer que seja na Nigéria.

Chegámos ao Jabi Motor Park de Abuja às 12:30, para apanhar o nosso transporte para Kano. Esta estação é um enlameado parque cheio de carros enferrujados, de tal forma que no início pensei que o taxista se tinha desorientado no caminho e tinha parado naquele ferro-velho para pedir direcções. Mas afinal o ferro-velho era o terminal de camionetas onde pretendíamos chegar, sim senhor.

Depois de pagarmos ao taxista, perguntámos-lhe se ele sabia de onde partia a camioneta para Kano. Ele arregalou os olhos e exclamou: “the bus to Kano?”. Saiu do táxi e disparou esta pergunta bastante pertinente, em alta voz, para o espaço circundante: “Who’s going to Kano here?”.

Olhámos umas para as outras.

Logo 6 ou 8 braços se estenderam até nós e nós escolhemos os 2 braços mais simpáticos e fomos atrás deles. Os dois braços pertenciam a um funcionário da estação de camionetas. Aqui, os bilheteiros não estão enfiados num guiché, com cara de enjoados, pálidos e pronunciando frases repetitivas e monocórdicas para os chatos dos passageiros – Não! Aqui os bilheteiros fazem marcha rápida pela terra batida do parque, procuram os passageiros, gritam por eles, correm para eles, guiam-nos por entre a azáfama de viaturas, escolhem-lhes o melhor transporte. É a eles que pagamos o bilhete da viagem, sem recebermos nenhum bilhete em troca. Poupa-se papel!

Ele lá descobriu um belo carrinho para nós, um carrinho normal, de 5 lugares. E lá estávamos: o motorista (um rapaz de 19 anos que não falava inglês, apenas hausa) e nós 3 aconchegadinhas no banco de trás, já pensando que se tivéssemos casado com o Emir de Bwari iríamos, com toda a certeza, num transporte mais digno e confortável para Kano…

Ficámos uns 5 minutos em silêncio e finalmente eu e a Mónica, que estudamos hausa, juntando esforços, perguntámos num hausa deficiente “Yaushe muna tafi Kano??” (“Quando é que vamos para Kano??”) ao que o motorista respondeu algo misterioso e incompreensível para nós, nesta língua tonal que às vezes lembra o chinês.

Olhámos umas para as outras.

Fomos perguntar ao bilheteiro o que se passava, que estávamos dentro da “camioneta” e ela não arrancava. E o bilheteiro explicou-nos que só partíamos quando se encontrasse um quarto passageiro, já que seria um desperdício partir com um lugar assim vago. E que tal se poderia solucionar se nós pagássemos por aquele lugar fantasma.

Resolvemos esperar um pouco pelo quarto passageiro, olhando de dentro do carro cada potencial passageiro com olhos ansiosos, como os de quem espera o Messias.

Finalmente o Messias chegou, e era um simpático homem hausa, advogado, e com quem acabaríamos por jantar em Kano, que animou imenso a nossa viagem com a sua afectada pronúncia british (que usava propositadamente para nos fazer rir) e com quem eu e a Mónica praticámos, felicíssimas, o nosso hausa pequenino.



As três princesas com o quarto passageiro.

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Como aqui praticamente não se tira a carta de condução, basta pagar por ela, os condutores são, no geral, bastante inconscientes, totalmente desregrados e competitivos. Cada condutor pensa apenas em si mesmo, quer sempre ir à frente dos outros, chegar primeiro onde quer que seja, não interessa por que meios, e não consegue compreender que com um pouco mais de paciência e de ordem todos acabam por ir mais depressa. Mas devo admitir que grande parte dos condutores adoptou um método invencível de chegar mais depressa que todos os outros ao seu destino. Têm um acidente daqueles bem feios e chegam num instantinho ao destino que é o de todos nós: a morte.

É impressionante a quantidade de gente que morre neste país devido a acidentes de viação, a maior parte das vezes totalmente evitáveis e causados por inconsciência e estupidez.

Arrancámos, lá íamos, o quarto passageiro falava ao telefone, a Mónica comia uma bolacha, a Pauline comia um folhado de galinha, eu bebia água e o motorista acho que conduzia, quando repentinamente um carro em processo de ultrapassagem guinou para a nossa frente e nós travámos, todos - todos a pedalar o chão do carro. Estávamos a salvo: depois de uns palavrões e algumas exclamações, continuámos.

Mas nós olhámos, ainda mais uma vez, umas para as outras.


continua…



quarta-feira, 1 de julho de 2009

o rei de Bwari

No domingo fui a Bwari.
Bwari é uma cidade e um governo local.
Faz parte do Território da Capital Federal (FCT), que é o nome dado ao estado que alberga a capital da Nigéria - onde a moi tem passado o cabo das tormentas e da esperança também - Abuja.
A Nigéria é uma república federal presidencialista, como os Estados Unidos. Está dividida em 36 estados e cada estado está subdividido em 774 áreas de governo local (Local Government Areas).
Imaginem, caros amigos! 774 governos locais!
Um país imenso, o mais populoso de África, o oitavo mais populoso no mundo, com cerca de 150 milhões de habitantes.
O mais grave problema social e político (e, consequentemente, económico) que o país enfrenta é, sem dúvida, a falta de unidade, de entendimento, de concertação. E isso será de espantar?
Estou convencida de que é devido a esta complexa rede hierárquica de poderes (qual máquina industrial absurda - e agora lembro-me do mendigo Charlot no Modern Times a apertar automaticamente parafusos, hipnotizado pelo ritmo repetitivo e estupidificante de trabalho; e a melhor parte é quando ele vê uma senhora de altos seios a aproximar-se e lhos aperta como se fossem dois grandes parafusos mal ajeitados e teimosos), de intrincado regionalismo, que a Nigéria dificilmente conseguirá ser uma verdadeira democracia.

Cada estado tem um governador, cada governo local tem um presidente. Este presidente é denominado, por vezes - nos governos locais do Norte da Nigéria, maioritariamente muçulmano, e dependente do emirado de Kano e, mais acima, do califado de Sokoto (cujo Sultão - Amirul Mumineen Shayk as-Sultan Muhammadu Sa'adu Abubakar - é para os muçulmanos nigerianos o que o Papa é para os católicos europeus e do mundo) - de Emir.

- Em jeito de aparte aviso que vou este fim-de-semana a Kano. Logo vos contarei -

Fomos de autocarro. Os autocarros são umas Peugeot 504 station wagon, verdes, de 12 lugares, onde os passageiros vão em alegre comunhão de pernas, braços e bens. A maioria destas carrinhas apresenta graves problemas nas suspensões e etc.

Chegámos a Bwari passados 45 minutos ou pouco mais. É uma cidade interessante - tem muitas livrarias (o que é raro no contexto nigeriano), devido à importante Universidade de Direito que alberga.

Dirigimo-nos ao Palácio e esperámos meia hora na sala de estar. Queríamos falar com o Presidente do Governo Local de Bwari, a que eles chamam - o Emir de Bwari.


Na sala de espera do Palácio
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Comove-me esta facilidade com que se chega a uma cidade e se pede para trocar umas palavras com o Emir. Já há uns posts atrás falei da liberdade que sinto nesta terra - este é um bom exemplo dela. Apesar do culto feudal a que estes chefes se prestam e alimentam, são, ao mesmo tempo, impossivelmente acessíveis. O que ilustra um dos muitos paradoxos desta terra.
A sala do presidente está aberta e qualquer pessoa da cidade pode visitá-lo e apresentar-lhe as suas saudações de viva voz.

Finalmente, entrámos na sala do Rei (em Hausa, chamam-no Sarkin Bwari, o que, literalmente, significa Rei de Bwari).
Paredes cobertas de fotografias em que o próprio posa nas circunstâncias mais variadas - recebendo um canudo do Presidente da República da Nigéria; trocando graçolas com o Embaixador da Itália; sentando-se hieraticamente ao lado do Sultão de Sokoto...).

O Rei é bem-disposto, cheio de sentido de humor e queria casar connosco porque as quatro mulheres que tem não lhe chegam e já as deve achar velhas. Ele dizia:"Como é que um homem pode casar apenas com uma mulher, com todo este sangue e força que tem de vazar? Seria uma frustração e uma vergonha!".

O Rei de Bwari, vestido de túnica azul, sobre o trono púrpura.
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Insistiu para que comêssemos fura da nono, leite de vaca fermentado, tipo iogurte, este bastante açucarado - com sabor a iogurte picante, porque está cheio de pimenta e de outras especiarias - com bolas de farinha de milho cozido. Que nós comemos com não-evidente-prazer.

A Mónica e a Pauline ainda estão a comer fura. Eu já tinha posto de lado a minha caneca.
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Falou sobre Bwari; foi recebendo cidadãos que se vergavam aos seus pés num ritual repetitivo de Hausa e de ossos, numa nua palavra - de humildade.

Alguns homens locais que vieram saudar o Chefe e contar novidades - que eu não percebi quais eram porque falavam num Hausa demasiado rápido e profundo...
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No fim - quis que lhe tirassem uma fotografia com as suas três futuras esposas.

Mónica, Sara, o Rei e Pauline, à frente do palácio Real de Bwari.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

tudo o que me deres eu te dou a ti

Com a Mónica brindando à Nigéria com um vinho sul-africano.
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Há dois dias a Mónica regressou das suas férias no país natal. Ela é galega e falamos em português, claro! É a leitora de espanhol na Universidade de Abuja.

Gosto muito dela.

O que me faz gostar dela é o que me faz gostar de pessoas como a Anabela, a Marie Hélène ou a Maria Cicova. Primeiro, a autenticidade. Depois, o perfeito maribanço para o que os outros possam pensar. São pessoas com quem eu sou eu mesma, sem a mínima hesitação ou tensão.

São verdadeiras amigas.

A Mónica chegou.

Ela é muito crente, vai todos os domingos à igreja – e com ela tenho explorado diferentes igrejas cristãs em Abuja, com diferentes missas, diferentes rituais e formas de adorar a Deus. É um mundo maravilhoso, no qual descobrimos muito da cultura africana. E é um mundo onde só é possível entrar com o coração e os olhos nus, sem preconceitos.



Trinity Church, Maitama, Abuja.
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No domingo, fomos à missa do meio-dia na Trinity Church, em Maitama. Esta é uma igreja católica. Noutro post falarei de uma igreja protestante onde fui há uns tempos, que mais parecia que estava a assistir a um concerto de hard jazz.

Podemos ir despreconceituadas para a igreja, mas não deixamos de reflectir. E algo que me intriga é a naturalidade com que se faz de uma igreja um verdadeiro negócio nesta terra. É uma estratégia explícita para fazer dinheiro – e nem é alternativa, nem brilhante, nem inteligente, nem interessante, é apenas comum comum comum, todos o fazem, até estrangeiros que vivem aqui – e resulta sempre!

Por vezes, chegam mesmo a distribuir folhetos, enquanto decorre a missa, publicitando workshops na igreja para a formação de futuros empresários da religião.

É tão explícito, que fico perplexa e não sei o que pensar. Se fosse dissimulado, cuspiria cobras e lagartos contra as igrejas nigerianas e o meu espírito progressista e anticlericalista seria um oceano de críticas e acusações. Mas como reagir perante tal naturalidade na extorsão de dinheiro aos pobres crentes? Os pobres crentes – vê-se – apreciam ser roubados pela igreja. Como fazer?

É habitual que a missa – em que igreja seja, de que corrente cristã seja – finalize com uma procissão de padres e directores de ONG’s e escritores de livros sobre visões do Inferno e do Paraíso, etc, pedindo a contribuição dos crentes para os seus projectos.

As duas pasmadas e já cansadas, depois de duas horas e meia dentro de uma igreja, agora com o próprio pastor da mesma exortando o rebanho para a oferta de umas nairas em prol da salvação de todos e dos pobres e das novas modernas instalações da paróquia que querem construir em honra de Deus, nosso Senhor.

De repente, pensei… Vou ao ouvido da Mónica e digo-lhe “Epá, já viste, esta gente antes de sair de casa para vir à igreja tem de rechear a carteira”. Rimos muito as duas. “Pois é, como nós – quando vamos jantar fora e depois a um bar”. “Pois é”, disse eu. Enfim, a verdade é que alguns nigerianos também devem achar absurdo o que gastamos em jantares fora, em camembert’s, em vinhos de monocasta, em livros, em roupa…

E ficámos até ao fim: assistimos à ocupação violenta de mais de 10 grandes baldes de plástico pelas Nairas, à bênção final com um pastor risonho espargindo água com um pincel enorme e descabelado sobre os fiéis, enquanto o coro cantava, o baterista tocava e os percussionistas exultavam.

No fim, fomos todos contentes (e refrescados) para casa.



sexta-feira, 5 de junho de 2009

retrato de família em Tarkwa Bay

Retrato de família, Tarkwa Bay, Lagos.
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O fim-de-semana passado estive em Lagos, com uma amiga suíça - a Sonja.
Lagos é uma cidade incrível: viva, com história, um mercado imenso. Tem duas ilhas principais que se ligam por meio de pontes. Em redor, lagos, pântanos - uma paisagem sublime, apesar da sujidade e da péssima manutenção geral.
Ficámos alojadas na Victoria Island - a ilha mais tranquila, sede de empresas, embaixadas, hotelaria e restauração.
No domingo de manhã, fomos à Lagos Island - a ilha mais viva, cheia de mercados, sede administrativa, uma colmeia de ruelas estreitas onde as casas mal se separam umas das outras e nas quais se entra por pequenas rampas sobre os regatos de esgoto.
Olhando estas ruelas transversais, não pude deixar de recordar Veneza.
Foi de Lagos Island que apanhámos o barco para Tarkwa bay. Um pequeno e velho bote a motor, com 12 passageiros colados uns aos outros, enfiados em esfarrapados e já nada insuflados coletes de salvação, com fios de água a escorregar pelas caras, pelos braços.
A baía de Tarkwa é um lugar paradisíaco. Palmeiras carregadas de cocos entre a areia e os pequenos bungalows onde vivem os locais. Lixo por todo o lado, porém. As casas não têm casa de banho, por isso os habitantes "easy theirselves" por entre uma palmeira e um arbusto. Sacos de plástico, restos de coisas, lixo lixo lixo, na areia, num recanto do mundo que poderia ser um paraíso turístico.
Depois de um longo passeio a pé, sob um sol musculado, suadas e sedentas, entrámos no que pensávamos ser um bar - um espaço aberto, com cadeiras e mesas sobre a areia, música africana bem alta, um grupo animado de gente a beber cerveja e gin... O grupo animado cumprimentou-nos "Welcome! Welcome!". Sentámo-nos e pedimos duas cervejas. O rapaz a quem fizémos o pedido sorriu... e foi buscar as nossas bebidas. Ofereceu-nos as garrafas, sentou-se perto de nós e disse timidamente: "Sabem, estamos a celebrar o nascimento da minha priminha, podem vê-la ali. Esta é a casa do meu pai."
Afinal, não entrámos num bar! Entrámos na casa particular de uma família que comemorava o nascimento de mais um ser neste mundo...
E eles estavam felicíssimos com a nossa presença. Foram imediatamente chamar o fotógrafo da aldeia para nos tirar uma fotografia de família.
Sim, porque nós já éramos da família.


quinta-feira, 21 de maio de 2009

o lagarto Kong

Um lagarto nigeriano.

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Quando vemos a realidade, quando estamos, de facto, atentos, e temos a possibilidade de a experienciar com um vigor que só é possível se estivermos fora dos escritórios e das casas e das escolas e das bolhas que são as cidades, então aí percebemos que o universo fictício, tal como é representado, por exemplo, nos filmes (especialmente os de ficção científica e de terror e de horror), nas bandas desenhadas, nos romances e nos poemas, nada mais é do que a realidade bem focada, vista com um zoom potente e bem manejado, de pessoa lúcida.

Olhando este belo lagarto – que tem sido das minhas causas de estupor diário por estas bandas, dada a sua sempre beleza – olhando-o apenas, nada veria de especial, para além daquilo a que já me habituei, que são estas cores, estes músculos, este mistério. Mas apontando-lhe um zoom, e fazendo como que um grande plano do cinema, focando-o e quase que lhe vendo os socalcos de membranas, aí apercebo-me de como ele me intriga, de como é uma figura inquietante – apesar de quotidiana –, que me pode causar medo – Mas ele foge!, panicoso, ao mais breve ruído que eu faça. E sinto isto por o reconhecer. Por o quase aperceber como um homem.

Estou a vê-lo, atentamente, e ele é personagem de banda desenhada, provavelmente o mau da fita, num momento de relaxe, ainda que alerta. E tão humano, de pernas esticadas, corpo atlético e musculado, em tensão, pescoço forte. A qualquer momento, revigorado, pode fixar-me e crescer e agredir-me com a sua cauda amarelada, prender-me entre os seus cinco dedos – como os dedos da gente; como o gorila gigante agarrando a bela actriz, no cinema.

Tem sido das mais gratificantes aventuras, para mim. Este calmo e concentrado observar. Talvez sinta todo este encanto por ser uma menina de cidade, que nunca teve um contacto tão próximo com a natureza.

Mas nunca é tarde de mais.



sexta-feira, 17 de abril de 2009

Jos





Jos, a norte da Nigéria.
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Por vezes sentia-me como no Longínquo Oeste. Em vez de rolos de ervas secas e ramos, encontrava lixo seco e restos de coisas como baldes, pegas de facas, sacos de plástico - que, afinal, não são mais do que lixo seco especificado. Se há substantivo que me venha à mente, depois da minha estada em Jos, é este: Secura. E também Cacto. E Tronco. Adjectivo?: Castanho. Talvez... Primordial.
Uma paisagem que nos remete para o princípio do Mundo. E para o fim - que a gente ainda nem sabe, mas imagina -, também. O princípio e o fim, sempre tão próximos, tão semelhantes, como gémeos do mesmo óvulo. Como ainda outras coisas contrastantes e banais.
Toda esta paisagem tão castanha e seca transformar-se-á em breve, durante a estação das chuvas. A ervinha vai brotar, depois de longa hibernação.
Estamos tão longe deste vigor, enfiados nas cidades! E somos tão pouco agradecidos à Natureza, já que tudo nos chega empacotado a casa, com a respectiva marca alimentar de confiança sobre o plástico protector...
As rochas eram assim, fendidas, quase todas, mascaradas como se fossem os perfis de gente desconhecida mas que se pressente importante - pelo desenho do nariz, da testa longa. Rochas de granito que irrompeu depressa de mais da terra, e que no seu erguer se foi partindo, rachando.
A temeridade tem o seu preço.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

welcome is better than sorry






A caminho de Gwagwalada.
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Passámos uns 15 minutos atrás deste belo "lorry". Habitualmente, os camiões de mercadorias são assim. Coloridos de grafites representando ou Jesus em várias posições, ou Moisés em pose doutoral, com dizeres em letras capitais alertando para o perigo da estrada e do ateísmo. E com a mão-de-obra toda empoleirada sobre Jesus e Moisés e sobre a fé em Deus e em Alá e sobre "o que será será".
Nunca falei aqui sobre isso, mas tive um grande acidente de carro há uns dois meses. Embatendo contra um camião muito parecido com este, onde estava empoleirado (graças a Padmasambhava) apenas um homem. Ele caiu pela força do choque, rebolou pela estrada (que era uma "express way", pelo que poderia ter sido trespassado por qualquer carro que viesse à velocidade normal) e eu própria não passei por cima dele com o meu carro por um daqueles truques do Destino - que não pára de nos surpreender e de colocar o nosso cepticismo à prova.
Quando, passadas 3 horas, consegui ser levada a uma estação de Polícia próxima, queriam acusar-me de "quase homicídio". Eu disse "mas este pobre homem ia empoleirado sobre mercadoria, num camião de uma altura imensa que era conduzido a mais de 100 km/hora, quando deveria estar dentro do camião bem protegido por um cinto de segurança - se assim fosse, ele nunca teria caído. Obviamente, a culpa não é minha, mas da vossa falta de supervisão e regulamentação nas estradas". Naturalmente, desataram todos a rir, fingindo não compreender. E eram todos homens, hausas, muçulmanos (o acidente foi perto de Zaria, a caminho de Kano, no Norte da Nigéria - onde a população é maioritariamente muçulmana).
Bom, mas tudo acabou bem e o rapaz está vivo e de boa saúde. Estes africanos de plástico - elásticos, resistentes, de osso duro. Relembro o seu olhar doce, enquanto lhe estendia duas notas de mil nairas, perguntando como se sentia - e ele aceitava, resignadamente, dizendo "não era a minha hora, graças a Allah, ele sabe".
Então, a caminho de Gwagwalada, atrás deste camião, lembrei-me dele - de quem nem lembro o nome, nem lembro se cheguei a perguntar. Em cada deslocado passageiro deste camião eu via a sua cara. Quis fotografar. Implorei ao Benjamim (o motorista que nos leva sempre à universidade) que não ultrapassasse.
E ele lá ficou, a 80 km/hora, atrás do velho e colorido "lorry", mal compreendendo mas aceitando, enquanto eu fotografava e balbuciava, comovida e espantada, "welcome is better than sorry".

quarta-feira, 8 de abril de 2009

o carneiro que miava





carne para as comemorações da Páscoa, Petersburg street, Abuja.
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Já vos falei do meu último matutino domingo. Lavado, tranquilo, sem o ruído do gerador.
Esqueci-me de vos contar da orgia de carne e sangue que se seguiu durante todo o inteiro dia no terraço dos meus vizinhos das traseiras.
Tirei estas fotografias clandestinas da janela do meu quarto, sentindo-me uma verdadeira repórter fotográfica, temerária e passando por instantes de perigo iminente - digna dos primeiros prémios da World Press Photo e das primeiras páginas da National Geographic.

- Para que se saiba, esta malta quando se vê fotografada sem gostar de ser fotografada, não hesita em puxar da catana, ameaçando-a pelos ares mais próximos. -

Aproxima-se a Páscoa. Eu por cá só tenho 4 dias de férias. Os meus vizinhos também. Mas vão aproveitá-los bem. Mataram o carneirito que andava por aí a miar há uns dias e vão partilhá-lo com amigos e família.

Não assisti à matança (graças às Deusas!), mas assisti aos recortes de jornal com a carninha ainda palpitante e vermelhinha. Juntaram-se vários homens (as mulheres, com certeza, irão juntar-se por sua vez na cozinha, para cozinhar os pedaços da criatura) no terraço do meu vizinho de trás. Alegremente, com muita risada, passaram horas e horas no talhanço do carneiro - e foram dividindo alguns pedaços por diversos sacos de plástico (para oferecer a vizinhos, amigos, família?; para vender?).

O Greenaway faria uma ópera cinematográfica disto, claro.

domingo, 5 de abril de 2009

domingo

um domingo, na igreja católica de Garki.
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Hoje é domingo.

Ontem choveu muito. Hoje está mais fresco, ainda que se mantenha aquela humidade peganhenta – e que sem ela estar aqui ou estar noutro lugar era a mesma coisa.

Quando começou a chover eu regressava de um bush bar vizinho. Fui lá com vontade de relaxar e beber uma cerveja sozinha; é um dos bush bares mais bonitos de Abuja – grande, bem tratado, muito verde. E fica a uns 30 minutos a pé de minha casa. Durante uma hora estive sentada, entretida nas minhas escritas e leituras, sem que ninguém me atendesse. Entretanto chegou um casal – e foi atendido. Chegou outro casal – e foi atendido. Muito calmamente levantei-me, fui ter com o empregado, e perguntei o que se passava. Ele disse que não se passava nada. Eu disse que estava há uma hora sentada numa mesa sem que ninguém me viesse perguntar o que eu desejava. Ele disse que me tinha visto e que tinha feito sinal a dizer que já ia, mas que estava a pôr umas mesas. Eu disse que tinha visto e que tinha esperado, mas que entretanto tinham chegado outras pessoas que ele atendera imediatamente sem dizer que já ia. Ele pediu desculpa e perguntou-me o que eu queria. Eu disse-lhe que queria que para a próxima vez que uma mulher branca e sozinha se sentasse nas suas mesas ele a atendesse imediatamente e com respeito. Ele disse está bem. Eu disse óptimo. E fui-me embora, sem beber a minha desejada cerveja.

Foi neste regresso a casa, ainda irritada com o sucedido, que caiu uma bátega sobre a minha cabeça. Esqueci tudo. E molhei-me que nem uma criança excitada na banheira.

Hoje acordei, e havia um silêncio pouco habitual. Tinha aberto as janelas, e entrava o cheiro das coisas lavadas e das coisas quentes que são molhadas e que se vaporizam neste odor quente, acre, terrestre.

Foi dos acordares mais agradáveis que já tive em Abuja.




segunda-feira, 30 de março de 2009

the Blake

The Blake, Abuja.
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Um dos lugares nocturnos que mais frequento em Abuja é o Blake. É um pub-bar-restaurante-concert hall a espaço aberto e uma relíquia antropológica. É fantástico observar a forma como os nigerianos gostam de passar uma noite de sábado.

Se chegamos cedo, por volta das 21:30, assistimos a uma espécie de espectáculo de variedades, com homens de plástico a fazer contorcionismos impossíveis com os seus corpos magros, acrobacias com cadeiras e varões e tudo o que consigam colocar em equilíbrio pela cabeça e ombros e pernas e tudo ao mesmo tempo a rodopiar e já eles próprios a rodopiar sobre eles próprios – numa massa disforme que, ao contrário de me provocar espanto ou admiração, de certa forma me angustia. Talvez pelo desespero com que actuam, suados e artificiais, vagueando depois pelas mesas a mendigar umas nairas enquanto fazem caretas e rebolam a bunda em shows mais particulares.

É por isso que gosto de chegar tarde ao Blake, assim depois de um jantar tardio. Por volta das 23:30 é que começa a boa música. A banda é fantástica, bem como os dançarinos. O tipo de música é a tender para o afrobeat, assim uma espécie de free jazz africano, com muito trompete e vozes – que mais falam musicalmente do que cantam.

Aos sábados o Blake está sempre cheio. A multidão ouve música e canta e dança, ao mesmo tempo que come os grandes peixes vindos congelados desde Lagos até Abuja.

O peixe que habitualmente se come por aqui é uma espécie de grande Dourada a que chamam croaker e que não sei como se diz em português. Um pode ser suficiente para três pessoas; é servido grelhado na brasa, acompanhado de batata frita e um molho de cebola, tomate e malaguetas delicioso. Sempre picantérrimo, comemo-lo com a mão direita enquanto a esquerda se vai mantendo limpa para pegar no copo e facilitar os tragos na cerveja gelada. Outro peixe que também se encontra muito e de que não gosto é o cat-fish, o peixe-gato. Não é um peixe de mar, como o outro; comprido, de corpo muito maleável como o das enguias (mas mais gordo e menos comprido do que uma enguia), com grandes bigodes e um focinho que nos lembra máscaras de teatro tibetanas, este peixe é pescado nos lagos, nos viveiros que abundam em Abuja só para sua criação e nas barragens. É um peixe que gosta de lama e de porcaria - talvez por isso seja tão viscoso, com uma carne um pouco gelatinosa e uma pele grossa, com uma espessa camada de gordura por baixo. Para mim, é enjoativo e só o tolero na sopa.

A partir de certa altura, está tudo bêbado e em autêntico delírio. Levantam-se, vão até ao palco dançar com os artistas e atirar-lhes nairas à cara (literalmente, aqui é assim que se dá dinheiro aos músicos e dançarinos – em vez de pôr na cuequinha, atiram uma a uma as notas que querem oferecer ou colam-nas na testa suada do contemplado, enquanto o público vai gritando a cada nota de naira e de bateria), cantam, dançam de olhos fechados e braços estirados – como quem suplica aos Deuses.

É uma orgia de suor, de alegria, de bebedeira e de ritmo. Imperdível para quem visite um dia Abuja.



quarta-feira, 25 de março de 2009

terça-feira, 24 de março de 2009

as costas do mundo


Gosto de fotografar as costas de gente, animais e coisas. Um pouco pela minha timidez, um pouco pelo efeito belo, misterioso e narrativo que as imagens ganham.

quinta-feira, 19 de março de 2009

universidade de Abuja II e outras coisas




final de uma aula à torreira com alunos do 3.º ano, universidade de Abuja, Abuja.
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Este novo campus tornou-se operacional há 2 meses.
Antes só havia Gwagwalada, onde está situada a maior parte da chamada Universidade de Abuja. A cerca de 50 km de Abuja, numa vila caótica e suja - Gwagwalada.
Para o novo campus ainda só se transferiram uns poucos departamentos, entre os quais o Departamento de Inglês e Estudos Literários - de que faço parte, ao que parece.
A maior parte dos alunos vive precariamente em quartos alugados em Gwagwalada e arredores. Têm que pagar 80 nairas (por volta de 45 cêntimos) para o autocarro que os traz de Gwagwalada ao novo campus e que, quando não fica a meio do caminho por lhe terem saltado umas peças das entranhas, chega passados 45 minutos, 1 hora, ao destino.
Os alunos chegam cansados, atrasados e insatisfeitos. Afinal, pagam dinheiro por um sistema que não funciona minimamente.
E depois têm que ter aulas de Português sob uma sombra minguante, sem cadeiras nem mesas decentes, entardecendo ao sol, entre pasto e edifícios em contrução --- sem nada - apenas eu, eles e um quadro, que desta última vez me caiu em cima 4 ou 5 vezes enquanto explicava o artigo definido e a sua concordância em género e número com o substantivo que acompanha.
O sentido de humor tem limites.
E estes jovens estudantes, com pouco dinheiro, com pais que fazem um sacrifício imenso para que eles possam frequentar a universidade - não mereciam esta (como chamar?)... esta negligência, este desleixo, esta treta, esta grandessíssima merda de educação a que têm direito.
Um país como a Nigéria. Já se sabe - rico.
E os estrangeiros que para aqui vêm trabalhar, vêm apenas para sugá-lo ainda mais, para fazer dinheiro, para fazer muito dinheiro. Tanto dinheiro!
E pode-se morrer na estrada ou na casa de alguém depois de um acidente de carro ou outro nem assim tão grave - apenas porque não há ambulâncias, não há electricidade constante nos hospitais, não há gente preparada para grandes boas acções...

segunda-feira, 16 de março de 2009

universidade de abuja



uma aula com um aluno de 2.º ano (o resto da turma chegou passada meia hora), universidade de Abuja, Abuja.
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Que sorte a minha! Estou no novo campus da Universidade de Abuja!
A leitora anterior teve o azar de dar aulas no velho sítio da Universidade, em Gwagwalada, onde não tinha condições nenhumas.
Eu estou neste, no novo, onde posso dar aulas ao relento, sob temperaturas torradorescas, vendo passar vacas e aves de várias cores, com uma maravilhosa paisagem em redor.
O edifício onde ensino - a chamada Faculdade de Artes - só tem três salas de aula. Os professores a elas se atiram como gatos vadios às espinhas e claro que ganham os veteranos - como o velho e respeitável Professor de Filosofia ou a pachorrenta e repetitiva Professora de História. Os restos ficam para os Leitores de Línguas Estrangeiras - essas espécies raras e ainda mal vistas, ou mal compreendidas, pelos restantes colegas do professorado.
Então, temos que chamar pelos nossos alunos e pedir que nos ajudem a carregar com um quadro para fora do edifício, de preferência à sombra - para não resultarmos em peças carbonizadas quais vítimas pompeanas do Vesúvio -, pedir que arrastem umas quantas cadeiras, tijolos e outros artefactos onde se sentem - e a aula começa. Sempre com sentido de humor, e enquanto não chegamos às 11.30, meio-dia, tudo decorre calmamente e, não fosse uma vaca que passa ou um banco que subitamente se desconcerta levando ao chão um aluno, nem dávamos por conta da situação precária de ensino em que nos encontramos. Mas a partir das 11.30, 40 graus, a sombra enfraquecendo - e nós todos em vale de suor gritando "Chamo-me Lazarus! Chamo-me Gift! Chamo-me Kofo! Como é que te chamas? Ela chama-se Mary Jane! Ele chama-se Jude!"...

segunda-feira, 9 de março de 2009

cabelos


os cabelos de uma rapariga, no
Blake, Abuja.
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Tratam muito dos cabelos.
Há umas noites atrás, a Maureen, uma nigeriana do sul, de Port-Harcourt, veio jantar a minha casa. Cada vez que a vejo está com um cabelo novo.
- O mesmo com algumas alunas minhas. Aliás, este último sábado perguntei, desgostosa, a uma aluna porque é que ela tinha cortado os seus cabelos, tão bonitos e longos, e ela respondeu-me, gozona, que não tinha cortado nada, "os meus cabelos estão aqui, debaixo destes falsos curtos que eu pus há dois dias". - (e sabe-se sá se aquilo que eu chamo os seus cabelos verdadeiros o são mesmo... talvez apenas cabelos falsos por baixo de cabelos falsos por baixo de cabelos falsos, como as camadas da Terra até ao núcleo interno... -
Então, em conversa animada com a Maureen, ela lá me explicou que as mulheres nigerianas sentem esta necessidade incontrolável de mudar de visual. Passam horas - até mesmo dias - nos cabeleireiros. Onde gastam fortunas, onde ficam a dever dinheiro, onde sofrem e choram!
Não só por elas - pelo macho homem também, claro. Elas sentem que são mais atraentes para o homem quanto mais variáveis e excêntricos são os seus cabelos... Para além de que o facto de se mudar de duas em duas semanas de cabelo indica que se tem dinheiro. E isso atrai.
Dizia-me a Maureen: "quando eles vêem que uma mulher anda sempre com o seu cabelo natural - e nós temos pouco cabelo, habitualmente, ainda que forte - e não o trata, não o pinta, não lhe acrescenta extensões, bom, então eles presumem que é uma gaja que não tem onde cair morta, pobre, e decadente."........
Amam as extensões. Andam por aí todas com umas cabeleiras impossíveis, imensas, excessivas e excedentes.
No início, pensava que os cabelos das nigerianas eram mesmo assim. Depois fui-me dando conta de espinhas de cabelos pela rua, pelas estradas, nas bermas dos caminhos, sim, restos mortais de tranças e fios e ramos de cabelos. Pensava "mas isto será para candomblé?!".
Não, não é. São as extensões que vão caindo... como as folhas castanhas das árvores caducas nos Outonos, como a pele ressequida das cobras... A cola nas fontes dos cabelos falsos vai cedendo e as belas vão encarecando - até arranjarem mais uns trocos para voltar ao cabeleireiro.

quarta-feira, 4 de março de 2009

uma escola


Uma escola secundária, Asokoro, Abuja.

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Apesar das janelas abertas, não me inspiraria a liberdade e a alegria que a aprendizagem e o conhecimento deveriam inspirar....
Quando a olhei, claro, pensei imediatamente numa prisão. Se clicarem na imagem, verão mais pormenorizadamente a fotografia.
Vinha da sede da Comissão da CEDEAO, no distrito de Asokoro, numa franja da cidade. Não encontrava táxi. Distraída, resolvi apenas caminhar. Um sol devorador (era perto do meio-dia).
Nunca tinha reparado nesta escola, de tantas vezes que já passei de carro ou de táxi por ela, a caminho da Comissão. É por isso que aprecio andar a pé. Não há melhor forma de conhecer profundamente uma cidade.
Num pavilhão separado deste bloco principal, decorria uma aula. Um professor, que distingui por entre choques de luminosidade e frestas, lia. Os alunos, irrequietos, estendiam-se pelas outras janelas - pequenos buracos no deserto, num espaço vazio, cheios de sombra e de bafio. Parei. Durante uns minutos observei a cena - tão cinematográfica! Numa janela, um professor entrecortado - como que interrompido nos seus movimentos pelos jogos de sombra e luz sobre as grades da janela - nas outras, os alunos - desmanchados, estendidos, dilatados, sobre as mesas, sobre a escuridão.
"Que paisagem mais triste!", pensei. Repentinamente, houve uma alegria. Os alunos estavam a repetir em alta voz algo que o professor ia ditando. Animavam-se.
Puxei da minha máquina fotográfica.
Um já me reparara antes. Palavra puxa palavra, já vários olhavam. Quando puxei da máquina, o professor fixou-me entre uma grade e a outra.
Intimidada, não tirei a fotografia.
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Consolei-me com esta, do edifício principal, que diria uma prisão ou qualquer outra coisa assim fechada grande triste, onde as pessoas perdem a vontade de viver.
Lembrei-me de uma citação do Pavese, mas só assim em abstracto - como que da ideia, do conceito -, porque não me lembro das palavras. E talvez a minha mãe me ajude aqui.
Onde ele falava de edifícios tristes como hospitais e universidades.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

apetites


Apeteceu-me dormir uma sesta sob esta árvore, ao lado deste homem. Adormecer a olhar as passadas e bicadas irrequietas da galinha.


Apeteceu-me aproximar-me daquelas roupas brancas estendidas e cheirá-las.


Apeteceu-me ligar para o número de telemóvel pintado nesta fachada pobre a perguntar quanto custa a casa. Apeteceu-me dar uma festinha no bode.


Apeteceu-me entrar neste hotel VIP, perguntar se tinha um bar VIP onde beber uma cerveja gelada, perguntar pelo preçário da estadia, perguntar se têm muitos hóspedes.

Se eu fizesse tudo o que me apetece não há dúvida de que a minha vida seria muito mais divertida.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

caminhadas


Kashim Ibrahim Way, Abuja.
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Mais aos fins-de-semana. Mas também acontece que me largue pelas avenidas de Abuja durante os dias de semana, ao fim da tarde.
Ao domingo, estão assim, como na fotografia: desertas.
Alguns carros estacionados, por vezes, em certas zonas pontuais, onde há jardins que grupos de amigos e famílias alugam para festas de aniversário, casamento ou para festejar o nascimento de mais um ser nesta vida.
Se olharem para a parte direita da foto, reparam que há alguns carros estacionados. Passei por lá, havia uma grande festa. Eles próprios levam uma aparelhagem, comida, boa disposição, muita dança; alugam apenas o espaço, cadeiras e mesas: e fazem a festa.

Não sei de onde me veio este gosto tamanho pela caminhada solitária. Talvez da adolescência, de quando passeava com a Filipa por Lisboa e arredores, sem consciência das distâncias ou das fronteiras da cidade, numa desobrigação de horários relaxante.
Nesse tempo: o tempo em que vivemos apenas para nós mesmos.

Habituei-me já a alongar-me pelas avenidas de Abuja. Por vezes sujas, outras vezes sem passeio para peões, algumas vezes sob um sol demasiado agressivo - mas posso ir sempre em frente como que dando a volta ao mundo, como que esquecendo que há fins, mesmo para as minhas pernas, bastando seguir e parar num bush bar quando tenho sede. Quem segue é o meu vento, o meu pensamento, não há limites para este bicho interior.

No fundo, tem tudo tão pouca importância, quando somos confrontados com questões iminentemente sérias e exigentes. Há tantos acompanhamentos na vida, como as batatas fritas, o arroz, a salada e até mesmo o ovo estrelado que rodeiam o bife num bitoque.


Como distinguir o essencial?

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

bush bars




Mãe e filho num bush bar em frente ao Dunes, Abuja.
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Fui jantar a este bush bar no passado sábado.

Os bush bars são pequenos cafés-restaurantes escondidos em zonas verdes, e ainda meio selvagens, de Abuja. Constituídos de uma barraquita onde se assa ou grelha o peixe e a suya (carne grelhada - de cabra ou de vaca - coberta de especiarias e de pó de chili, gengibre e amendoim, acompanhada de cebola, tomate e couves aos pedacinhos - bem picante) - sentamo-nos onde calha, em algumas de entre tantas cadeiras espalhadas sem ordem pela relva e sob as árvores. Ir à casa de banho nestes sítios é sempre uma experiência. A maior parte das vezes vamos para um canto onde a luz não chega (o que não é difícil, porque há pouquíssima luz nos bush bars) e regamos toda a natureza com os nossos fluidos mais íntimos...

Estava com um grupo de amigos e observava uma mãe e um filho que se encontravam na mesa ao lado da nossa. É tão raro ver demonstrações de carinho entre crianças e os seus pais nesta terra, que não pude deixar de pasmar com as brincadeiras que faziam. (In)discretamente, puxei da máquina fotográfica e eternizei quatro instantes de afecto... e de projecto de fúria (porque a senhora mãe, quando se deu conta do atrevimento meu, quase que me batia).

Ela é linda - tem uma folha seca na mão - e ele é terno - de olhos grandes.